quarta-feira, 27 de abril de 2011

Algumas palavras sobre bullying

Falar de bullying é falar de nossas histórias de vida. Afinal, quem nunca foi vítima, espectador ou autor de bullying? Se resgatarmos nosso histórico de vida escolar, vamos perceber que em algum momento estivemos num contexto de bullying e, ainda que não tenha deixado marcas conscientes, muitas vezes no nosso inconsciente elas estão presentes.

Comumente, vemos, no ambiente escolar, crianças, desde muito pequenas, e adolescentes, digo isso pautado nas minhas vivências em sala de aula, colocando apelidos nos colegas, criando estigmas, discriminando-os por serem obesos, negros, pertencentes a camadas sociais mais baixas, por diferirem na orientação sexual, na escolha religiosa, por pertencerem a diferentes tribos e grupos, entre outros.

Nesse cenário, para muitos educadores com um olhar descuidado, tudo isso pode parecer apenas “zueira” (palavra das nossas crianças e jovens), mas, para aqueles que sofrem bullying, isso é algo muito mais sério e, por vezes, trágico. Segundo DREYER (2005), além de causar danos cruéis, o bullying está disseminado nas escolas, e seus comportamentos característicos tendem a aumentar rapidamente com o avanço da idade dos alunos. Trabalhos internacionais têm demonstrado que a prática do bullying pode ocorrer a partir dos três anos de idade, quando a intencionalidade desses atos já pode ser observada (NETO, 2005). Os motivos que levam a esse tipo de violência são extremamente variados e estão relacionados com as experiências que cada indivíduo tem em sua família e/ou comunidade (Ibidem).

As práticas de bullying apresentam determinadas características, como comportamentos deliberados e danosos, produzidos de forma repetitiva um período prolongado de tempo contra uma mesma pessoa; mostra uma relação de desequilíbrio de poder, o que dificulta a defesa da vítima; não há motivos evidentes; acontece de forma direta, por meio de agressões físicas e verbais, e de forma indireta, por meio de agressões morais e sicológicas, caracterizando- se pela disseminação de rumores que visam à discriminação, ao preconceito e à exclusão (FANTE, 2005).

A palavra bullying é derivada do verbo inglês bully, que significa usar a superioridade física para intimidar alguém. Também tem valor de adjetivo, com o significado de “valentão” e/ou “tirano”. Não há tradução para a palavra bullying na língua portuguesa, mas, de maneira geral, ela está associada a ações como colocar apelidos, ofender, humilhar, discriminar, excluir, isolar, ignorar, intimidar, perseguir, assediar, aterrorizar, amedrontar, dominar, agredir, bater, chutar, empurrar, ferir, roubar, etc.

Mais do que um fenômeno, como defende BEAUDOIN & TAYLOR (2006), o bullying é uma cultura na escola, mas entendo que não devemos aceitá-lo como algo natural e inevitável entre os nossos jovens, nos colocando a mercê dessas práticas. Acredito que não se pode mudar a cultura em um sentido mais amplo, mas pode-se produzir um efeito local na subcultura da escola (Ibidem), de forma a proporcionar mudanças significativas nas relações no convívio escolar e social.

Das nossas inquietações

Nos últimos quatro anos, nos quais atuo na docência em escolas de ensino fundamental e ensino médio, notamos, por vezes, que alguns alunos se sentiam excessivamente intimidados quando solicitados a resolver um problema na lousa, a expor um trabalho, a apresentar um seminário, etc.

Com o passar do tempo, constatamos que esse sentimento era motivado por ser, ele ou ela, vitimizado/a pelas práticas de bullying. Começamos então a atentar para o desempenho escolar desses alunos, nos esforçando para compreender suas aprendizagens. Percebemos que muitos deles t

tinham dificuldades não só de auto-aceitação e de convivência com seus pares mas também dificuldades de aprendizagens, entre outros problemas.

Diante dessa realidade e imbuídos do nosso papel de educadores, buscamos criar situações favoráveis às aprendizagens e à formação cidadã dos indivíduos. Assim, vimos na realização de um trabalho sobre as práticas de bullying uma possibilidade para enfrentarmos o problema.

Começamos então a pesquisar e ler sobre o assunto, a fim de levantar referencial teórico que desse suporte a nossas ações - CAMACHO (2000), CANDAU (1999), CARDIA (1997), FANTE (2005), GONÇALVES & SPÓSITO (2002), OLWEUS (1993), UNESCO (2001) e na legislação vigente: Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (2003), Constituição Federal (1988) etc. Lemos uma série de materiais e lançamos a proposta de realizar um projeto à coordenação pedagógica da escola e aos professores das turmas nas quais lecionávamos (1º. ano do Ensino Médio Regular).

Como normalmente ocorre, nem todos os colegas professores se interessaram por tal trabalho, mas, mesmo assim, conseguimos reunir um grupo que se propôs levá-lo adiante. Dessa maneira, professores de língua estrangeira – inglês –, geografia, filosofia e matemática socializam materiais, livros e artigos e começam a escrever o projeto1, que foi posteriormente submetido à Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas (CENP), órgão da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, para análise e apreciação.

Semanas após o envio do projeto a esse órgão, recebemos o parecer dos técnicos e especialistas, que avaliaram pertinente e importante um trabalho com tal temática no currículo escolar, tendo em vista as necessidades e especificidades das práticas com alunos daquela faixa etária, em sua maioria entre 16 e 18 anos. Projeto aprovado, recebemos a verba para custeá-lo. Logo, providenciamos os materiais necessários e demos início ao trabalho, que durou vinte semanas, durante o ano letivo de 2006.

1É uma palavra derivada do latim pro-jectum, que significa jato lançado para a frente. Sua característica primordial é de estar sempre lançado para além de si mesmo (JAPIASSU & MARCONDES, 1993, p.202). Na mesma linha que ALMEIDA (2000, p.86), acreditamos que o desenvolvimento de projeto visa transformar uma situação problemática em uma situação desejada, e envolve ambigüidades, soluções provisórias e variáveis. Além de envolver um processo de construção, participação, colaboração e articulação (MORAN, 1998).

2Entendemos por “vínculo” um processo de abertura e aceitação a outra pessoa como um todo. O vínculo refere-se ao estar junto e também à realização de atividades conjuntas, impedindo o surgimento de sérios problemas entre os alunos, como as brigas, a competição, o desrespeito, ajudando-os a serem tolerantes uns com os outros, a aceitar a diversidade em sala de aula e a aproveitar o longo tempo que passam na escola (BEAUDOIN & TAYLOR, 2006, p.120).



Escrito por prof.jaysonmsilva às 10h53
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“Lições de Cidadania e Direitos

Humanos: escola sem bullying”

Nosso projeto teve um foco sobre diferentes aspectos da educação: a curiosidade, a autoconsciência, a cooperação, o vínculo2 e o respeito pelas perspectivas daquele grupo de aproximadamente duzentos jovens.

De maneira geral, quisemos mobilizar professores, alunos, gestores e a comunidade escolar para, compreendendo o bullying, buscar respostas e oportunizar ações para combatê-lo, tendo como princípios os valores a serem promovidos em sala de aula – apreciação, colaboração, entre outros –, propiciadores de um clima de solidariedade e de respeito mútuo.

Nossa primeira ação com os educandos foi socializar com eles nossas pesquisas e propor-lhes que preparassem seminários sobre as práticas de bullying, enfocando as diversas formas de manifestação, as características, os envolvidos e as conseqüências, além de formas de combate e propostas para a escola. Procuramos, nessa primeira etapa, sensibilizá-los, levando-os a uma reflexão mais profunda sobre a temática, incitando-os a promover ações de combate ao bullying na nossa escola. No decorrer das atividades do projeto, fomos percebendo que eles estavam dispostos a colaborar com a resolução do pro blema, pois se sentiam incomodados com aquela situação, até então velada no nosso cotidiano.

Formaram-se grupos de discussão nas aulas, estes apresentavam temas relacionados ao bullying e sensibilizavam os colegas da turma. Ocorriam debates acalorados nos quais geralmente a palavra de ordem era “chega de bullying”. Nas etapas seguintes, criamos uma comunidade virtual3 no orkut4, denominada pelos envolvidos no projeto “Escola sem bullying”, a qual tornou-se um espaço para colocarem suas angústias, experiências, debaterem o assunto, comentarem os depoimentos. Concomitantemente, construímos um mural que ficou exposto para toda a comunidade escolar durante o período de um mês. Nele, todos os alunos envolvidos puderam expressar e socializar suas idéias, dúvidas, angústias, informar sobre o assunto, oportunizar, através da comunicação visual, discussões e debates.

Ao término do ano letivo, gravamos um DVD com depoimentos de alguns alunos sobre as práticas de bullying, o projeto realizado na escola, as inquietações individuais diante do assunto e planos futuros. Posteriormente, passamos a usálo em vivências de formação de professores.

3Serve para designar grupos de pessoas que se relacionam no ciberespaço através de laços sociais onde hajam interesses compartilhados, sentimento de comunidade e perenidade nas relações (RHEINGOLD, 1996, p.20). Elas podem contribuir para a mobilização dos saberes, o reconhecimento das diferentes identidades e a articulação dos pensamentos que compõem a coletividade, por isso, é possível à escola utilizá-las, levando em consideração as intervenções intencionais do professor, que podem funcionar como agente capaz de contribuir para o aprofundamento dos temas debatidos e discutidos, orientando-os e aprofundando-os (MACHADO & TIJIBOY, 2005).

4Portal que funciona como mediador social e favorece a criação de redes de relacionamentos através de espaços onde o usuário pode juntar pessoas do seu círculo de relacionamentos, conhecer outras que compartilhem os mesmos interesses e discutir temas variados, construindo diferentes elos.

Considerações finais

Ao nos propormos a trabalhar com a temática bullying em nossa escola, levamos em conta a necessidade e urgência de contextos de discussão, reflexão e ação em torno do assunto, enfatizando a cultura de paz e do respeito aos direitos fundamentais do ser humano (BRASIL, 1988) e, ainda, a valorização da troca de experiências como forma de aprendizagem, de acatamento ao pensamento e à produção do outro, instituindo uma visão solidária das relações humanas a partir do contexto da sala de aula. Mais: quisemos acomodar no mesmo patamar os papéis desenvolvidos por homens e mulheres na construção da sociedade contemporânea, com o intuito de estabelecer a igualdade entre os sexos, livre de qualquer tipo de preconceito e discriminação de gênero, de orientação sexual, racial, cultural, entre outros.

Acreditávamos ser possível encontrar caminhos para ressignificar as relações humanas, tanto no cotidiano escolar quanto na vida em sociedade, e foi o que conseguimos alcançar com nosso trabalho. /ago 2008

(...) Quando os alunos mudam, não é porque adquiriram um conhecimento intelectual sobre o respeito, mas sim porque descobriram sozinhos quais são suas preferências nos relacionamentos que têm uns com os out ros. É muito mais convincente e significativo perceber as próprias preferências do que ser informado sobre quais deveriam ser essas preferências (BEAUDOIN & TAYLOR, 2006, p.182).

Em resumo, apontamos que a maioria dos fatores que podem traçar um possível perfil das crianças e jovens envolvidos em práticas de bullying perpassa questões de auto-estima que, muitas vezes, remontam, por exemplo, a históricos de maus tratos, omissão de pais e professores, abandono familiar na primeira infância, carência afetiva.

Dessa maneira, devemos refletir sobre nosso papel enquanto educadores, nossas práticas, a relação que estabelecemos com nossos alunos e alunas, e o compromisso que temos com a educação, para que possamos tomar a iniciativa de interferir no momento adequado e de maneira adequada, facilitando as aprendizagens, num ambiente onde haja respeito mútuo, solidariedade e cooperação.

"Inúmeros alunos de todas as idades nos disseram que sua ligação com um educador, que tenham tido a chance de conhecer como pessoa, aumentou sua motivação para concluir tarefas e levou-os a nutrir uma atitude mais positiva" (BEAUDOIN & TAYLOR, 2006, p.123-124).

Defendemos que o papel da escola não é tãosomente o de “ensinar”, conforme a concepção equivocada que ainda vigora na sociedade atual, mas sim o de criar situações de aprendizagens que promovam o desenvolvimento individual e coletivo dos educandos, no e para o exercício da cidadania plena. Para isso, saber conviver, na escola e fora dela, é fator fundamental para sermos cidadãos, numa sociedade que se pretende justa e democrática.

Referências

ALMEIDA, M. E. B. T. M. P. O computador na escola: contextualizando a formação de professores. Tese de Doutoramento. Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo. Pontifícia iversidade Católica de São Paulo, 2000.

BEAUDOIN, M. N. & TAYLOR, M. Bullying e desrespeito: como acabar com essa cultura na escola. Porto Alegre: Artmed, 2006.

BRASIL. Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos. Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos. Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos; Ministério da Educação, 2003.

BRASIL. Presidência da República Federativa. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Casa Civil, 1988.

CAMACHO, L. I. Violência e indisciplina nas práticas escolares dos adolescentes. Tese de Doutoramento. Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2000.

CANDAU, V. Escola e violência. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 1999.

CARDIA, N. Violência urbana e a escola. Revista contemporaneidade e educação. Rio de Janeiro, IEC 2, p.26-69, 1997.

DREYER, D. A brincadeira que não tem graça. Portal Educacional: 2005. Disponível em: http://www.educacional.com. br/. [Acesso em abril de 2008].

FANTE, C. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 2. ed. Campinas, SP: Versus Editora, 2005.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

GONÇALVES, L. A. & SPOSITO, M. P. Iniciativas públicas de redução da violência escolar no Brasil. Cad Pesqui, 2002.

JAPIASSU, H & MARCONDES, D. Dicionário básico da filosofia. 2ª. Ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1993.

MACHADO, J. R. & TIJIBOY, A. V. Redes sociais virtuais: um espaço para efetivação da aprendizagem cooperativa. Novas Tecnologias na Educação. CINTED-UFRGS. v. 3, n. 1, maio, 2005.

MORAN, J. M. Mudanças na comunicação pessoal: gerenciamento integrado da comunicação pessoal, social e tecnológica. São Paulo: Paulinas, 1998.

NETO, A.A. L. Bullying: comportamento agressivo entre estudantes. Jornal de Pediatria Online. Vol. 81, nº 5 (supl.), p. 164-172, 2005. Disponível em: http://www.jped.com.br [Acesso em abril de 2008]

OLWEUS, D. Bullying at school. Cambrigde, MA: Blackwell, 1993.

RHEINGOLD, H. La comunidad virtual: uma sociedade sin fronteiras. Gedisa Editoral. Colección Limites de La Ciência: Barcelona, 1996.

UNESCO. Abrindo espaços: educação e cultura para a paz. Brasília: Unesco, 2001.



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